Quinta-feira, 22 de Novembro de 2007

As regras do jogo

Às 9:00 daquela quinta-feira Luís Macedo, gestor executivo sénior, chegou ao trabalho. Pontualmente, como todos os dias. Pela frente uma reunião de grupo às 9:30. A reunião de administração do dia anterior correra tão mal que lhe roubou completamente a noite. Maus resultados, pressão dos clientes, entregas falhadas, indemnizações compensatórias. Um panorama devastador mesmo para alguém como ele, treinado e preparado para todos os cenários. Era preciso agir depressa e a reunião de grupo seria o ponto de viragem. Passar rapidamente de presa a predador é condição necessária para não ser caçado. Entrou na sala 5 minutos atrasado. Os seus 10 colaboradores já estavam todos sentados, laptops ligados, projector já devidamente configurado pela assistente com o primeiro powerpoint da sessão: Projecto A - análise e acções imediatas -. A caminho da sala foi revendo mentalmente cada um dos pontos da agenda e a estratégia de gestão da reunião. Entrou forte, como vem nos livros. Em 10 minutos despachou a análise dos problemas do projecto e avançou para as medidas, que explicou detalhadamente. Enumerou as 5 principais razões para a falha do projecto, atribuindo responsabilidade directa por 3 delas ao João e por 2 delas à Ana. Foi claro e convincente. Nenhum deles contestou a análise. Distribuiu então pelos 10 colaboradores as 20 acções correctivas a implementar de imediato, em que trabalhara toda a noite, sendo o João o único a que não foi atribuída qualquer tarefa. Passou então para o ponto seguinte da agenda: avaliação do grupo. Começou a apresentação com uma daquelas frases batidas do Jack Welch, cartilha básica de qualquer gestor: "Ranking has been portrayed as a cruel system. The cruel system is the one that doesn't let anyone know where they stand." Toda a gente na sala conhecia bem a regra do jogo: 20-70-10. Naquela sala 10 % das pessoas não iriam permanecer no grupo, 70% teriam de melhorar, 20% seriam promovidas. E foi exactamente naquela altura que a Ana o interrompeu. Luis, tem qualquer coisa na testa, parece-me sangue, é melhor ir à casa de banho.

Ele olhou todos eles nos olhos, um a um, antes de se levantar e sair da sala. Em frente ao espelho viu alguém que desejou não ser ele próprio. Uma agulha de acupuntura esquecida na testa, entre os olhos, uma mancha de sangue que escorria na direcção do nariz. Lembrou-se de ter perguntado ao médico se alguma vez se tinha esquecido de uma agulha. Alguma vez seria a primeira. Nada seria como dantes. Nada. Durante 1 ano escondera tudo de todos. Lembrou-se da primeira vez em que sentiu que algo estava errado. Em casa, num almoço de domingo, deixou cair o talher, a mão a tremer incessantemente. Escondeu a mão. Não foi nada, isto passa. Uma ano a arrastar-se para o trabalho, entre médicos, antidepressivos, ansiolíticos, acupuntura. Um ano de reuniões interrompidas com pretextos habilmente escolhidos. Um ano sem faltas nem falhas. Lembrou-se daquele dia em que chegou a casa já às 11 da noite, o filho a dormir, sentou-se à cabeceira dele, sentiu muito calor, abriu a janela e por um momento sentiu um desespero singular, muito mais forte do que todos os que já sentira. Para logo a seguir pensar que os projectos são para levar até ao fim. Bendito dinheiro gasto num MBA que lhe serviu pelo menos para aquele pensamento salvador. Retirou a agulha e colocou-a no lixo. Lavou a cara demoradamente com água fria. Era preciso voltar para a sala de reuniões. Havia coisas a acabar, pessoas à sua espera. Entrou na sala onde todos estavam no mesmo sítio, como se alguém tivesse carregado no pause. Pediu à assistente que lhe passasse o laptop e pediu a todos que lhe dessem 5 minutos antes de retomar a apresentação. Todos se comportaram como se nada se tivesse passado. Alguém carregou no play.  Um slide por pessoa, começando pelos despromovidos e terminando nos promovidos, apresentando sucintamente a classificação e correspondente justificação. João Moreira: despromovido. Incumprimento dos objectivos de projecto definidos no ano anterior. Luís Macedo: despromovido. Incumprimento das regras de confiança e transparência do grupo. Indicou então o Alfredo como seu substituto, responsável por concluir a avaliação do resto do grupo. Teve ainda tempo de recapitular as seis regras do jogo, que apresentou num último slide:

1. Big dogs own the street .

2. Be No. 1 or No. 2 in your market .

3. Shareholders rule .

4. Be lean and mean .

5. Rank your players ; go with the A's.

6. Hire a charismatic CEO.

7. Admire my might.

 

publicado por ManyFaces às 19:55
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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2007

Web Power

2N-N-1

That's the number of different ways that N different people can get together.

Imagine that N is just 3. These three people could create 3 different groups of 2 people and one including all 3 people, a total of 4 groups as the equation predicts. That's a small start but as N gets bigger the number of possible groups grows, at first steadily, and then turns a corner and soars vertically up into the sky.

Alun Anderson

publicado por ManyFaces às 19:19
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