Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007

Tanta gente

O Senhor Rodrigues e a sua Mulher viveram toda a sua vida activa numa remota ilha dos Açores, onde nasceram. Funcionários do estado, alimentaram durante décadas um secreto projecto para a sua reforma. No dia 1 Janeiro de 2003 reformaram-se ambos. Precisamente no mesmo dia, porque assim constava do projecto. Nesse mesmo dia juntaram os seus três filhos e 10 netos para jantar em sua casa e anunciaram que iriam partir para Lisboa no dia seguinte para procurarem a sua futura casa, onde pretendiam viver o resto dos seus dias. Só voltariam à ilha durante as festas de Agosto, uma semana por ano. No dia seguinte lá estavam os dois às 16:30 numa agência imobiliária do Rossio, com entrevista previamente marcada há um ano atrás. Os requisitos eram muito simples. Da sua nova casa tinha de se ver gente, muita gente... O agente imobiliário, não encontrando nas suas minutas mentais uma resposta formatada, pediu mais esclarecimentos... A casa não tinha de ser espaçosa, bonita ou particularmente arejada. Precisavam de um quarto e de uma sala. A sala teria de ter uma portada que se abrisse sobre uma rua e nessa rua tinha de haver gente, muita gente.... Gente que passasse a caminho do trabalho, gente ocupada com a sua vida, muita gente... O agente registou o pedido no seu formulário electrónico. No campo das características do imóvel escreveu "em rua com muita gente".

Encontrei o Senhor Rodrigues um dia no Rossio, perguntei-lhe pelos Açores. Desviou a conversa e começou a descrever a sua nova casa em Lisboa. Encontrou-a na Baixa, numa das ruas mais movimentadas. "Tem uma sala maravilhosa, com portadas viradas para a rua. Todos os dias às 7:30 abrimos as portas e sentamo-nos os dois a olhar a gente que passa na rua. Às 9:30 fechamos as portas porque já passa pouca gente. Durante o dia venho muito aqui ao Rossio. Há um café perto da minha rua mas não tem muita gente sabe.... Aqui os cafés são magníficos, transbordam de pessoas. Sento-me aqui horas e horas a ler o jornal e a sentir este movimento. Adoro isto. Em Agosto passado voltámos aos Açores mas tivemos uma problema logo à chegada. Ainda no aeroporto a minha Mulher sentiu falta de ar, julguei que sufocava. Fiquei muito aflito sabe? Durante as festas ela sentiu-se sempre muito mal... O que me valeu foram as tardes de ensaio da banda filarmónica, no coreto da praça. Íamos para lá e ela sentia-se melhor. Mas quando voltávamos para casa, não imagina... Eu tenho aquela varanda enorme virada ao Mar que o Senhor bem conhece, ela tentava ir para lá apanhar um pouco de sol mas depois faltava-lhe o ar outra vez. Tive de fechar a varanda..."

Voltaram a Lisboa na semana seguinte. Foram ao médico que lhe recomendou aulas de Pilates para relaxar. Ficaram de pensar no assunto e levaram um folheto para casa: "Relaxe com Pilates". O folheto mostrava foto de uma aula com uns 20 alunos sorridentes, com aquele efeito de espelhos que dá a ilusão de serem 200. Era essa mesma foto que o Senhor Rodrigues trazia no bolso e me mostrou naquele café do Rossio. "Estou muito esperançado nestas aulas. Repare só na quantidade de gente..."

publicado por ManyFaces às 19:34
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Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007

Cinzas

Levei a jarra até aquele sítio na Barra de Aveiro onde os barcos entram Terra adentro. Ficara surpreendido com a última vontade dele. Sempre achara que ele queria as cinzas lançadas naquele quintal, junto das nogueiras de que ele tanto gostava.
Agora estou aqui com esta jarra na mão, a minha Mãe não consegue parar de chorar. Fica dois passos atrás de mim, expectante, diz-me para acabar com isto depressa e olha em volta nervosa... Esvazio metade da jarra e páro. Não consigo acabar, Mãe. Quero levar o resto comigo. Quero sepultá-lo num lugar onde possa levar flores. Quero visitá-lo no dia de finados, no mesmo cemitério onde está a minha Avó, o meu Avô. Quero que fiquem todos juntos. Não o quero largar aqui na água fria. Ele queria ser cremado por medo. Pois bem, isso agora já não faz sentido. Agora a sua morte também me pertence, sou eu que tenho de viver com ela. O que ele queria não me importa. Vou levá-lo comigo, Mãe.
publicado por ManyFaces às 12:13
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O Auto-embalo (patent pending)

Ele estava a falar talvez há 20 minutos, sem parar. Ela esboçava apenas uns gestos de confirmação, ou de surpresa, ou de compreensão, de uma forma profissional, calculada. Ele descrevia aquela noite de insónia total, a vertigem do escuro, a boca seca por gritar calado a noite toda. E enquanto o fazia as lágrimas corriam-lhe pela cara e caiam no sofá. E ao fim de 20 minutos, ela interrompe e pergunta "você já experimentou embalar-se a si mesmo?".

Para os descrentes em milagres de consultório, os cépticos do aconselhamento psicológico e inimigos de Freud em geral, eis que ao sétimo dia Ela criou o auto-embalo para salvação da vida na Terra.
Não nos podendo salvar uns aos outros com embalos à séria, por já sermos grandes e crescidos e envergonhados, resta sempre o auto-embalo.

publicado por ManyFaces às 11:50
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Eu sou um campeão em tudo

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

 

"Poema em Linha Reta" - Álvaro de Campos

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publicado por ManyFaces às 11:36
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Quarta-feira, 8 de Agosto de 2007

Gémeos (In)separáveis

Tanta milha gasta para vir até aqui, para fugir até aqui e afinal encontro-te ao virar da esquina. Parecia impossível viajarmos os dois para a mesma ilha no meio do Atlântico. A mais improvável de todas elas. Dizes-me que passas mal... Que dormes mal. E que tenho eu a ver com isso? O avião é às sete. Regressa enquanto podes. Eu por mim estou farto das tuas conversas de umbigo. Tenho mais que fazer. Não vais sozinho? Só regressas comigo?

Está bem, já percebi... Então ficamos os dois. Hoje à tarde vamos nadar para o Carapacho. Tu vais meter a cabeça bem debaixo de água, sem medo... Vai chover? Meu Deus.... Isso não importa nada, esquece, respira fundo. A cabeça bem debaixo de água, até ficares sem fôlego. Vai ser muito bom. Já está a ser bom. 

publicado por ManyFaces às 15:05
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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Espelho Meu

Um dia numa sala de espera de um psiquiatra sentei-me ao pé dum tipo com cara de quem precisa mesmo de um psiquiatra. Estávamos os dois sozinhos e calados, eram 10 da noite, eu já tinha lido todas as revistas femininas dos últimos meses. Estava ali a olhar para ele e a pensar na cara miserável do tipo. "Este gajo está completamente fucked-up, coitado." Até que fui chamado, levantei-me e dei-lhe a boa noite. Atrás de mim ouvi qualquer coisa, talvez um sorriso, virei-me e era o tipo a falar comigo. "É a tua primeira vez, não? Vai lá então... Estás com cara de quem precisa mesmo de um bom psiquiatra". Saí da sala e antes de entrar no gabinete fui à casa de banho. Para me ver ao espelho.
publicado por ManyFaces às 11:12
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